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Emoções na Maré/RJ

21 Jul 2009


Queridos amigos ,

Escrevo para fazer um relato de um dia fora do comum. Acabo de chegar , domingo de tarde , da Conferência Livre da Maré , a primeira conferência livre de um bairro do Rio de Janeiro no contexto da CONSEG.

Para minha surpresa , verifiquei que estavam presentes nada menos que 185 pessoas formalmente inscritas , entre moradores da Maré , lideranças comunitárias , ativistas de direitos humanos , pesquisadores , além do comandante do 22o. BPM , cel Seixas , a capitão Pricilla que comanda o policiamento comunitário do Santa Marta e o cel. Seabra , que comanda as comunicações da PMERJ. Além desses , muitos amigos da REDES e das outras entidades que convocaram a conferência livre passaram por lá o dia todo. Inclusive um grupo de franceses vindos do município da periferia de Paris , Virth-Sur-Seine , que anotavam cada frase entre boquiabertos e incrédulos.

Tudo ocorreu no Centro de Artes da Maré , o belo e grandioso espaço que Lia Rodrigues e seu grupo de dança e arte ergueram dos escombros de uma velho galpão , numa das entradas da Nova Holanda , na Maré.

As fortes emoções começaram pela manhã bem cedo , quando traficantes reagiram à presença de veículos e do forte efetivo da PM com tiros dirigidos ao local onde se realizaria a conferência. Tudo se acalmou rapidamente , quando os traficantes perceberam que não se tratava de uma invasão , mas de um debate. A tensão , contudo , perdurou por um tempo até a abertura.

Eliana Silva , da REDES , abriu os trabalhos com uma explicação da importância histórica da participação da Maré na Conferência Nacional de Segurança Pública: "a Maré vai levar suas propostas , nós queremos ter voz em Brasília". Por isso estamos cumprindo os procedimentos de uma conferência livre , como explicou Raquel Willadino , do Observatório de Favelas. Miriam Guindani e Julita Lemgruber fizeram ótimas exposições sobre o sistema de justiça criminal , o controle externo da polícia e sublinharam a importância do encontro. O tom da abertura e a ênfase no diálogo deram o mote do dia: "todos que estão aqui são bem vindos. Não queremos preconceitos , queremos o diálogo e vamos debater tranquilamente nossas opiniões sobre segurança pública , que é um tema que nos afeta diretamente" , disse Eliana.

Ao longo do dia o que se viu foi quase um milagre: grupos de 30 a 40 pessoas discutiam organizadissimamente pontos dos eixos temáticos e anotavam suas concliusões em grandes cartolinas. Os grupos tinham a cara da diversidade total , gente de favela , do asfalto , da cultura , da militância , da polícia , da academia.

O almoço , preparado pela famosa "Galega" , da Maré , arrasou , com cinco opções , que iam da carne de sol ao estrogonofe , vários tipos de feijão , cuscus , farofa e fartura nordestina total.

Bira , o fotógrafo da Escola Popular de Fotografia da Maré , me mostrava em sua câmera uma das centenas de fotos que bateu ao longo do dia: o cel. Seabra inclinado se servindo no balcão da Galega ao lado do Robson , da Rocinha/Viva Rio e de outras liderança da Maré. Bira me disse: "vem ver: democracia é isso".

Na mesa de almoço em que estava o cel Seabra se sentaram Marcia Jacinto , que teve seu filho assassinado em 2002 e que investigou o crime por contra própria e provou que ele fora assassinado por policiais , que hoje estão presos (Marcia ganhou o prêmio Faz a Diferença do Jornal O Globo de 2009) , Patrícia Oliveira , irmã do Wagner , da Candelária , da Rede Movimento Contra a Violência nas Comunidades e outras ativistas que eu não conhecia. Seabra , Seixas e Pricilla , os policiais , tinham participado do mesmo grupo de debates que Márcia , Patrícia e outras 30 pessoas antes do almoço e a despeito das diferenças , o que se viu naquele e nos outros grupos ali na Maré é que o diálogo - milagre - é possível.

O mais incrível do Rio é que essas coisas , essas cenas inesperadas , essas viradas de página se dêem exatamente na Maré , ali onde t-o-d-a-s as dificuldades , barreiras , tabus , preconceitos teriam tudo para ser maiores do que são em qualquer lugar. Ali onde é mais difícil reunir pessoas para "discutir segurança publica" do que em Copacabana , Barra ou Botafogo , com suas mil opções de locais seguros e tranquilos. Ali na Maré , onde a Conferência Livre começa com tiros e acaba com diálogos imprevisíveis e inusitados... isso também é o Rio. E isso é histórico.

Graças à coragem da Eliana e do monte de gente corajosa , criativa e ousada que ela lidera hoje no Rio de Janeiro.

Um abraço ,

Silvia

     



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